quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Jornadas do Patrimônio: Como valorizar a arquitetura e o patrimônio histórico

Nadia Somekh


Nos dias 19 e 20 de setembro de 2015, a convite do governo francês, tive o privilégio de participar das Jornadas do Patrimônio na cidade de Paris na sua 32ª edição.
O tema deste ano, capitaneado pelo Ministério da Cultura e da Comunicação, foi “O patrimônio do século 21, uma história de futuro”. A própria ministra, na apresentação das Jornadas, explica a possível perplexidade em relação ao tema: a vitalidade da arquitetura contemporânea, bem como os debates da COP 21, conferência do clima a ser realizada em dezembro próximo em Paris, coloca a questão ambiental no cerne da preservação do patrimônio histórico. Segundo a ministra, Fleur Pellerin, o que transmitiremos para as gerações futuras prepara-se desde já. Nesse patrimônio, a criação contemporânea tem o seu lugar no projeto de lei apresentado ao Congresso Nacional na semana que antecede ao evento em foco.
O referido projeto de lei permite aos arquitetos atualizarem o patrimônio histórico, principalmente o do século 18 e 19, com intervenções contemporâneas, estas também já constituídas em um novo patrimônio.
Essa concepção deu origem a uma exposição realizada na “Cite de l Architecture et du Patrimoine”, onde 72 projetos escolhidos na Europa apontam possibilidade de superar a mera reabilitação de prédios históricos e valorizá-los através da “ideia de transformação como ato de criação integral”, segundo Francis Rambert, organizador da mostra.
Organizada em oito seções temáticas propostas numa perspectiva cronológica em escala mundial, abarca no seu recorte 50 anos do debate transformação versusdestruição.
A linha do tempo desse debate tem na sua origem a Fábrica Ghirardelli em São Francisco, de 1964, e o Sesc Pompéia em São Paulo, de 1977, entre outros, como contraponto à destruição total do conjunto habitacional de Pruitt-Igoe, em 1972, e a possibilidade de valorizar o patrimônio a partir da arquitetura contemporânea.
Para a diretora regional de assuntos culturais de Paris o patrimônio histórico foi associado aos grandes monumentos do passado, principalmente igrejas e palácios, elementos que contam apenas uma parte da história da cidade. Hoje, conjuntos urbanos fazem parte de um patrimônio protegido, que às vezes passa despercebido pela população; para ela, o patrimônio histórico não se resume a uma questão estética, mas também o interesse técnico e social de um bem cultural. Como exemplo, foi apontado o da manufatura de 1980, com seus tijolos aparentes típica da periferia operária, que se transformou no Centro Dramático Nacional de Val de Marne.
Uma antiga edificação ferroviária contígua a Gare d’Austerlitz, com 300 metros de comprimento, foi transformada em incubadora de start-up, congregando além da proteção do patrimônio a possibilidade de geração de trabalho de forma contemporânea.
O aspecto de sensibilização das jornadas é apontado como essencial, além da constatação que as áreas envoltórias dos bens tombados fazem parte dos planos de urbanismo local.
A arquitetura moderna da primeira metade do século 20 é protegida por uma chancela estabelecida pela Região Metropolitana de Paris, onde 500 edifícios foram listados a partir de critérios da inovação da obra, podendo auferir do prestígio e de isenções fiscais.
No seminário, organizado no dia anterior as jornadas, foi apontado que a transmissão de valores intergeracionais repousa sobre os ombros da comunidade. Como a comunidade enquanto ator e não expectador depende do grau de consciência social, torna-se importante as Jornadas do Patrimônio, que faz parte de uma estratégia de comunicação mais ampla, que congrega saber técnico, militantes, simpatizantes, poder local, além do reconhecimento do Estado Nacional.
A França nos dá um ótimo exemplo de como proteger os bens culturais a partir de intervenções contemporâneas.
sobre a autora
Nadia Somekh é professora da graduação e pós-graduação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Mackenzie e Presidente do Conpresp.
 

Escola de Arquitetura Paris Val de3 Seine. Arquiteto Frederic Borel. Evento "Patrimoine du XXIe Siècle, une histoire d'avenir", Paris
Foto Nadia Somekh

















Entrada da exposição. Evento "Patrimoine du XXIe Siècle, une histoire d'avenir", Paris
Foto Nadia Somekh














Texto curatorial da exposição. Evento "Patrimoine du XXIe Siècle, une histoire d'avenir", Paris
Foto Nadia Somekh














Fundação Jérôme Seydoux-Pathé, Paris, Renzo Piano Building Workshop. Exposição "Patrimoine du XXIe Siècle, une histoire d'avenir", Paris
Foto Nadia Somekh

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